Minha alma escorre como em um rio de palavras. Sou uma metáfora que ressoa como um gemido de uma Fênix em pedaços. Há uma chama que consome minha imagem, meu reflexo e meu aroma. Estou perdido, sem memória possivel, desaparecido e pulsando. Não há mais sóis nem templos de ilusão. Existo como um EU, que se reconstroi entre cacos e silêncio.
Quarta-feira, Outubro 12, 2005
POEMA METAPLASMÁTICO
Vi as três formas de gozo perverso e neurótico
formando-se sobre as névoas de um charuto fedido.
Desconheço o impulso arrebentado de minhas artérias
ou o grito dogmático da escultura nua de pedra sabão.
Consegui me encontrar entre palavras transformistas
na insígnia das microestruturas acrocientíficas.
Desmundo o segmento analgésico de meus medos
e transformo meu silêncio em espasmo azulado.
Voluptuosamente taquicádico, destilo o sêmen da finitude,
enquanto vegeto sonhos e fragmentos passageiros
que me envolvem como teia ou casulo metamórfico.
Memória, segmento e incomunicabilidade cataclísmica.
Sinto as lanças atravessando meus ossos desarticulados,
desprendidas das grades e varais fixas em meus olhos.
A mesa de mármore, onde crimes e rituais pagãos,
sangra com o plasma doce de meu sangue cor de brisa.
Déjà vu. Repito as imagens, remetendo o sentido desconhecido.
Não vivo! Calculo matematicamente as omprobabilidades
que me transgridem ou transfiguram0me em linguagem.
Alamedas vazias, postes, pontes e sonâmbulos tornados
(L. F. Calaça | 07/10/2005)
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O MELANCÓLICO E O DANÇARINO PARALÍTICO
E a noite me devora enquanto degolo o silêncio
com um beijo e um desejo triste e apagado.
Como se os anjos soterrados ressurgissem em ossos
e o primeiro fosse o último mistério de meus sonhos.
Se guardo aquele quadro feito de tiras de papel
é porque agora já me sinto mais do que pedaços.
Sou o átomo, o minúsculo estado de materialidade,
enquanto espero o seu encontro com mim mesmo.
Sonhador, leio cantos e poemas desiludidos,
amaldiçoando o corpo e a memória que pulsa nas estrelas.
A junção ideal e impossível entre sua carne e minha carne.
Milagres de um mirante afogado em brisa imensa.
Já me perdi mil vezes no deserto de angústias.
Sofro como uma criança que jamais amou,
e cambaleio como um velho eremita na noite insana.
Já não danço o canto dos malditos ou o ocaso
que me desnuda como estrutura de ossos salteados.
A grande torre arranhando o céu vermelho
e o cego circulo em chamas desvirginado pelo orgasmo.
Continuo... continuo... e as palavras já não me querem
que eu seja homem, mortal, tela e espada.
De farrapos, de lascas, de vidro e pele delirante.
(L. F. Calaça | 03/10/2005)
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OUTRA CANÇÃO IMPURA
Estou novamente aqui. Novamente neste espaço imutável, após caminhar léguas, pés em chamas, no mesmo ponto inerte. O suor começa a brotas de meus poros. Já quase não tenho sangue. Uma gota levemente salina desliza pelo meu pescoço flácido e rígido. Eu, pronome pessoal do caso reto. Eu, protótipo de mim mesmo. Retornarei ao meu estado de ansiedade. Voltarei a me derramar em palavras vãs, como quem chora, como quem goza um orgasmo estéril e solitário. Abraço meus ombros sob a água do chuveiro. Tudo começou assim, numa noite de febre e insônia. Rejeitei-me. Cuspi em minhas memórias e divagações. Agora, abraço meus ombros nus, repletos de cicatrizes, marcas de erupções vulcânicas. Fogo expulso e violento, arrastando e devorando meus sonhos. Minhas mãos deslizando. Rosto aconchegado para o lado. A água do chuveiro lambendo a pele fria em chamas. Fios e pêlos, o princípio de uma barba rala e falhada roçando no braço. A mão decaindo das costas misteriosas e jamais vistas, como a curva do abdômen. Eu e meu corpo detestável. Odeio essa imagem refletida no espelho. Odeio e ao mesmo tempo sou fascinado. Os braços pendem. Olhar inerte, entreaberto, para o chão cinza As mãos se cruzam sobre o sexo latente e latejante. Espero um instante. Continua seu trajeto. Apenas um dos lados seguindo as linhas das coxas, joelho, pernas. Fios emaranhados. Lágrimas lambendo a imagem paradoxal de mim mesmo. Vazio neste mar de corpos vagos, flácidos e rígidos. Pesadelo e cataclisma. Não tenho ninguém para beijar o veneno adocicado. Não tenho ninguém para ter nos braços e me ter. Sou sonâmbulo, olhando o muro de vidro, as luzes no escuro, o sentimento alheio. Invejo. Sinto frio. Caminho inerte, circulando meu corpo sem mover o calcanhar do chão de lascas de ferrugem. Adormeço sobre mim, amarrotado, despido. Apodrecendo e renascendo com medusa. Chama no horizonte do quarto cor de crepúsculo que se reinicia novamente.
(L. F. Calaça | 07/09/2005)
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PÁGINA DOIS
Meu corpo incendiado jaz neste divã. Eu e meus olhos desarticulados. Os pés desfeitos como o beijo jamais trocado. Sigo o pensamento que se perde, enquanto olho as vidas que se movem, se tocam e se misturam. Continuo acordado e imóvel, inerte neste pilar de ilusões desfiguradas. Seus olhos procuram outros meninos no barulho mudo. Seus olhos não procuram os meus, que foram arrancados das órbitas e estão camuflados atrás dos óculos escuros. Minhas unhas, de tão ruídas, latejam ensangüentadas. Amarro minhas idéias com correntes de chumbo iguais às que me prendem ao abismo e ao eterno estado de esterilidade. Continuo sempre. Continuo como se o tempo não passasse e eu permanecesse imutável, imerso neste estado de sonambulismo e miséria profana. Cansei de esperar. Cansei de mim, meu olhar melancólico, meu luto eremita, minha insensata sensação de anulação. Seus olhos não procuram os meus, talvez por deixar meu corpo suspenso em passos deslocados, sem equilíbrio, convulsivos, transtornados. Os passos sou eu mesmo, enquanto danço a melodia que ninguém escuta. Os passos sem equilíbrio, transtornados. Não agüento mais, mas persisto. Permaneço neste ponto zero, neste local afogado de ilusões dissipadas. O meu corpo calcificado, petrificado, decomposto e transformado em seca.
Seus olhos procuram outros meninos no barulho mudo.
Seus olhos não procuram os meus olhos.
Continuo sempre.
Continuo...
(L. F. Calaça | s/ data )
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